Aécio vive o efeito Orloff

“Eu sou você, amanhã”. A propaganda era de uma marca de vodka, a Orloff, que pretendia convencer as pessoas que, se tomassem um trago hoje, evitariam aquela triste figura… amanhã. O bordão ficou tão famoso, que cunhou o chamado “Efeito Orloff”. Alvo de nove inquéritos no Supremo Tribunal Federal, o pré-candidato ao Senado por Minas – atalho mais seguro para manter alguma influência política e, claro, imunidade parlamentar -, Aécio Neves, prestes a, afinal, virar réu, deixou o abrigo onde vinha se escondendo para se defender – e atacar. Soltou uma nota, assinada por sua defesa, e “convocou” a imprensa ao seu gabinete no Senado. Posou de mártir de uma “tsunami de versões” que atingem sua reputação. Como nada melhor do que um dia após o outro, vale lembrar que o senador tucano, responsável direto pelo início do processo que levou ao impeachment de Dilma Rousseff – incapaz de aceitar os 3,5 milhões de votos que o separaram da candidata do PT -, usou argumento muito parecido com o de seus adversários políticos – e que sempre desqualificou. Ele cobrou o acesso às provas já produzidas nas investigações contra ele e se disse vítima de um “enredo preparado” pelos delatores da JBS. “Um enredo pré-determinado por um cidadão que recebeu benefícios”, afirmou o tucano. Segundo ele, “foi uma construção feita pela defesa do senhor Joesley Batista, com membros do Ministério Público” – ele estava falando, como sabem, do ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot.

Para esta terça, 17, está previsto o julgamento, pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, de denúncia formulada pela Procuradoria Geral da República contra Aécio por crimes de corrupção e obstrução de Justiça. Como qualquer casa de pão de queijo da Savassi sabe, Aécio foi acusado pela PGR em junho do ano passado de pedir propina de R$ 2 milhões ao empresário Joesley Batista, dono da J&F, em troca de favores; e também de tentar atrapalhar o andamento da Operação Lava Jato (ainda assim pasmem, o caso não é considerado parte da Lava Jato porque não haveria benefícios diretos a Aécio do esquema da Petrobras). Acusado é força de expressão e jargão jornalístico. Aécio foi gravado por Joesley, no dia 24 de março do ano passado, no Hotel Unique, em São Paulo, e os diálogos são explícitos. Vamos relembrar um trechinho?

Joesley: Aécio, vocês têm que botar na cabeça o seguinte: hoje é difícil? É. Amanhã é pior. Depois de amanhã, é pior. Depois de amanhã é pior. O tempo está correndo contra. Se tivesse resolvido isso há um ano atrás, ia ser difícil, chato.
Aécio: Mas tinha passado.
Joesley: Tinha passado. Tá indo, tá indo. Daqui a pouco, p […], tá ó….
Aécio: Tô mergulhado nisso, minha vida é isso cara, minha vida virou um inferno
Joesley: Deixa eu te falar dois assuntos aqui, rapidinho. É…a tua irmã (Andréa) teve lá…
Aécio: Obrigado por ter recebido ela lá
Joesley: Tá…ela me falou de fazer dois milhões, pra tratar de advogado …primeira coisa, num dá pra ser isso mais. Tem que ser….
Aécio: é?
Joesley: Tem que ser. Eu acho pelo que a gente tá vendo tudo, pra mim e pra você, vai ser a primeira coisa.
Aécio: Por que os dois que eu tava pensando era trabalhar…
Joesley: Eu sei, aí é que tá Aécio , assim ó, toma… eu e você acabou… aí não tem, pronto. Primeira coisa. Eu consigo (…) que é pouco, mas é das minhas é das minhas lojinhas, que eu tenho, que caiu a venda pra c […]
Aécio: [risos]
Aécio: Como é que a gente combina?
Joesley: Tem que ver, você vai lá em casa ou…
Aécio: O Fred
Joesley: Se for o Fred, eu ponho um menino meu pra ir. Se for você, sou eu. Só para [risos]….
Aécio: Pode ser desse jeito [risos]
Joesley: Entendeu? tem que ser entre dois, não dá pra ser…
Aécio: Tem que ser um que a gente mata ele antes dele fazer delação [risos]
Joesley: [Risos] Eu e você. Pronto.. ou o Fred e um cara desses… pronto.
Aécio: Vamos combinar o Fred com um cara desse. Porque ele sai de lá e vai no cara. Isso vai me dar uma ajuda do c […]. Não tenho dinheiro pra pagar nada. Sabe porque eu tenho que segurar esse advogado? Queria indicar o Toron pra ele. A melhor imagem é a do meu avô, com a avaliação lá de 600 pra segurar o cara. Porque não tem mais, não tem ninguém que ajuda.
Joesley: E do jeito que está…
Aécio: Antes de ter mandado a Andrea lá, eu passei dez noites sem dormir direito. Falei ‘não vou’ porque o cara já me ajudou pra c […], mas não tem jeito, eu vou entrar numa m […] dessa sem advogado?
Joesley: Você tá certo….

Pausa (minha).

Segundo a nota divulgada nesta segunda, 16, pela defesa de Aécio, é “imprescindível” que o pedido de acesso a provas seja aceito pelo Supremo Tribunal Federal, “uma vez que esses elementos podem comprovar a ilegalidade de provas e das armadilhas arquitetadas contra o senador com a participação de membros do MPF [Ministério Público Federal]”. Na nota, o advogado de Aécio, Alberto Zacharias Toron, diz que Joesley Batista e o ex-procurador Marcelo Miller já tiveram acesso a “vários documentos”, o que não aconteceu, segundo a nota, com a defesa do tucano. Aécio foi mais longe. “O lamentável de tudo isso é que a ânsia de punir impediu que aquilo que é normal no nosso sistema jurídico, que o inquérito, que pressupõe a investigação antes da aceitação da denúncia, viesse a ocorrer”, disse. Onde você já ouviu isso antes?

Nos últimos 14 meses, a Primeira Turma tem firmado posição no sentido de receber a maioria das denúncias apresentadas contra parlamentares. Desde fevereiro do ano passado, o colegiado endossou cinco denúncias e rejeitou apenas uma. Nesse período, foram transformados em réus os senadores Romero Jucá Filho (PMDB-RR), Agripino Maia (DEM-RN) e Wellington Fagundes (PR-MT), além dos deputados Adilton Sachetti (PRB-MT) e Luiz Nishimori (PR-PR). O único que teve a investigação arquivada foi o deputado Rôney Nemer (PP-DF).

Aécio, que como têm mostrado os Divergentes, de tão queimado que está, enfrenta fortes resistências até do próprio partido para manter a candidatura ao Senado, vai ter mais preocupações nessa campanha do que o embate com sua virtual adversária, a ex-presidente Dilma Rousseff.

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