Petrobras regride à imagem dos anos 70

A Petrobras despenca 40 anos em sua evolução. Esse é um dos efeitos do rescaldo dessa crise que se abateu sobre a estatal a partir da Operação Lava Jato, e que se espraia agora como efeito colateral da chamada greve dos caminhoneiros.

O governo obrigou a empresa a tomar medidas do interesse da administração. Isto criou uma desconfiança do mercado sobre a qualidade das intervenções do acionista majoritário na gestão da empresa.

Com isto, a Petrobras voltou a ser percebida pelos mercados como uma estatal convencional dos anos 1970 nos moldes do antigo Terceiro Mundo, antes de a empresa projetar-se como uma das “majors” do setor mundial de energia.

Com atuação em toda a cadeia do petróleo e combustíveis líquidos (incluindo álcool e biodiesel), operando com sua bandeira no mercado de varejo de derivados no Brasil e no Exterior. A Petrobras lançava-se como uma verdadeira “oitava” do cartel das Sete Irmãs e, ao lado da Statoil da Noruega, constituiria a exceção de confirmava a regra de que as estatais de petróleo não são competitivas dos mercados e ineficientes. A brasileira e a norueguesa teriam administrações profissionais e políticas empresariais de acordo com as práticas aceitas pelo mercado. Esta imagem caiu por terra.

O derretimento do valor de seus papéis nos mercados internacionais de valores é um fato. A queda de suas ações no Brasil depois que o governo foi encurralado pelos caminhoneiros completou a onda de desconfiança que se abateu sobre a Petrobrás desde os escândalos e dos prejuízos aos acionistas e detentores de seus papéis, abatidos pelo “Petrolão”. As idas e vindas, os recuos e outras trapalhadas expuseram essa submissão indesejada aos acionistas (principalmente os estrangeiros, que não prestam atenção à política interna brasileira). O lucro deixa de ser uma prioridade. A ações despencaram

Um parêntesis: nos mercados internacionais o levante dos caminhoneiros não foi percebido como uma greve convencional. Os carreteiros são profissionais liberais com ativos de capital de alto valor. Um caminhão rodoviário, no Brasil, vale entre 150 mil reais, os menorzinhos, até o mais caro, o Volvo FH15 Globe-trotter, que sai da fábrica a um milhão de reais. Dessas carretas que se viu nos bloqueios, a maior parte custa entre 400 e 500 mil reais.

Aqueles motoristas que falavam nos telejornais não eram funcionários de transportadoras, mas donos dessas gigantescas máquinas. O mercado entendeu que a parede não era greve de empregados, mas um locaute de empresários autônomos, donos desses ativos. Por isto, o recuo do governo e a ameaça à presidência de Pedro Parente chegou ao mercado e repercutiu com a quebra de confiança. A Petrobras volta a ser juma empresa à mercê de governos, pior ainda se for um mandatário fraco. O investidor está torrando suas participações e fugindo para longe.

Com isto, ao dobrar a Petrobrás o governo expôs a fraqueza da administração da companhia diante de pressões políticas. Essas vacilações são entendidas pelos acionistas como fraqueza da tal gestão profissional, impotente diante das conveniências partidárias. Isto, efetivamente, confirma, aos olhos dos operadores, as acusações de que a Petrobrás foi desvirtuada para atender aos interesses eleitorais dos partidos políticos. Essa dependência de governos afugenta o investidor, pois não há segurança do critério para o dinheiro aplicado. Uma ação é uma inversão de risco.

Num estudo, a analista e jornalista Carla Miranda definiu essa posição: “No caso da Petrobras, sua utilidade para o Brasil e sua competitividade única no mundo reside justamente nas informações e na tecnologia que ela detém. A Petrobras é a única, entre todas as grandes NOCs (sigla em inglês para estatais de petróleo), que foi criada antes de haver a constatação da existência de reservas provadas de petróleo em seu território de atuação. Todas as outras foram geradas num ambiente de certeza de reservas provadas e/ou de fácil nacionalização de ativos pré-existentes”.

Esta a diferença das Petrobras entre as maiores empresas estatais de petróleo. As grandes pertencem a países produtores e têm suas avaliações em cima das reservas, quando a brasileira era ainda mais uma indústria do que uma dona de poços de petróleo. Só depois do pré-sal que o Brasil passou a exportar alguns tipos de petróleos inservíveis para o fracionamento de combustíveis automotores.

A revista inglesa The Economist alinha algumas particularidades das empresas estatais de petróleo no mundo:

– Das dez empresas de capital aberto do mundo que mais faturam, quatro são estatais: as chinesas Sinopec, Corporação Nacional de Petróleo da China e State Grid e a japonesa Japan Post.

– As dez maiores empresas de petróleo e gás do mundo, medidas pelo tamanho das reservas, são estatais;

– Juntas, as companhias controladas pelo Estado têm um valor de mercado correspondente a 80% do mercado de ações chinês, 62% do russo 38% do brasileiro, considerando o índice de ações MSCI, calculado pelo banco Morgan Stanley;

– Dos investimentos estrangeiros diretos em países emergentes previstos para 2012 e 2013, um terço tende a ir para empresas estatais.

A Petrobras estava à frente na lista para absorver investimentos do sistema financeiro internacional. Entretanto, depois que se curvou às idiossincrasias de seu governo, perdeu essa possibilidade. De blue chip converteu-se em “mico”. Uma vergonha nas bolsas (hoje perdeu a liderança para uma fábrica de bebidas).

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