Começa assim

Apparício Torelly foi um jornalista, escritor e pioneiro na arte de tirar sarro dos políticos e dos governos. Gaúcho, radicado no Rio de Janeiro, atribuiu a si mesmo o título de Barão de Itararé. A alcunha nobiliárquica já carregava uma polêmica. Itararé é uma pequena cidade na divisa de São Paulo com o Paraná e passou para a história como palco da batalha que não houve na Revolução de 1930. Há uma enorme controvérsia sobre a veracidade ou não do embate na cidade, mas isso não é parte desta história. Voltemos ao nosso Barão.
Migrou para antiga capital e, em 1925, começou a trabalhar em O Globo. No mesmo ano, foi para o jornal A Manhã, do jornalista Mário Rodrigues, pai de Nelson Rodrigues. Apparício escrevia notas de humor na primeira página e satirizava os políticos. Com o sucesso dos textos, ele resolveu montar o próprio semanário. Nascia então A Manha (sem o til), o primeiro jornal de humor do País. Muito talentoso, o Barão exercia como poucos a arte do sarcasmo e da ironia. Foi um frasista espetacular e incomodava, também como poucos, os governantes de plantão.
Reprodução YouTube
O humor sempre foi uma arma corrosiva contra o poder, qualquer poder. O uso indiscriminado de tal arma começou a trazer transtornos para ele. Na década de 30, já no Jornal do Povo, foi sequestrado e espancado por oficiais da Marinha. Por causa do episódio, colocou na porta do jornal a seguinte placa: Entre sem bater.
Em 1947, foi eleito vereador do Rio de Janeiro, pelo PCB, com o slogan “Mais leite! Mais água! Mas menos água no leite”.  Era também um ferrenho opositor ao governo Vargas e assistiu, por diversas vezes, ao jornal dele ser empastelado.
Empastelar era um termo usado nas velhas tipografias, que significava amontoar, misturar e, com isso, inutilizar as composições necessárias para a impressão do jornal. Foi uma prática muito usada pelas ditaduras em todas as épocas. Aconteceu na Alemanha nazista de Hitler e na Itália fascista de Mussolini. No Brasil, era prática corriqueira durante as ditaduras e mesmo em tempos de democracia em pequenos jornais do interior.
Bastava criticar o chefe político local e logo um grupo de bate-pau era acionado para depredar o veículo. A prática parecia atualmente restrita às pequenas cidades. Mas, agora, assistimos a uma tentativa de ressuscitar o empastelamento. Um grupo de fascistas comandado por alguns Tonton Macoute invadiu o jornal O Globo, no Rio Janeiro. Entraram no parque gráfico, vandalizaram e foram embora. Começa assim. Hoje arrancaram uma flor do jardim. O silêncio da Federação Nacional dos Jornalistas é ensurdecedor e cúmplice.
Algumas frases do Barão:
Os vivos são sempre, e cada vez mais, governados pelos mais vivos.
Quando o pobre come frango, um dos dois está doente.
Este mundo é redondo, mas está ficando muito chato.
Apparício Torelly morreu em novembro de 1971.
Com o auxílio luxuoso da Wikipédia.

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