Convenções fake

A operação triangular entre MDB, PSDB e DEM ganhou alguns lances midiáticos, como outros que virão, para garantir a visibilidade de quem precisa hoje posar, pouco disfarçadamente, de adversário. Como naqueles truques de mágica em que o ilusionista sacode a cartola e tira de dentro um coelho, o DEM, numa convenção que teve a estatura do partido, lançou a pré-candidatura presidencial do chefe da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. O filho do ex-prefeito do Rio, César Maia, tem tantas chances de ser presidente quanto o coelho do tal mágico. Mas ficará de barriga de aluguel da própria legenda, e dos partidos do chamado Centrão, como mostrou a divergente Helena Chagas. Até que a candidatura tucana de Geraldo Alckmin se mostre a alternativa a um dos franco-atiradores dessa eleição: o capitão-deputado Jair “a minha especialidade é matar” Bolsonaro, lançado pelo PSL, ou o pedetista Ciro Gomes.

Este, evidentemente, é o cenário de uma cada vez mais provável eleição sem o ex-presidente Lula, que poderia apoiar Ciro. E a candidatura do líder do MTST, Guilherme Boulos, agora filiado ao PSOL, para desespero da “velha guarda” do partido? Boulos é outro coelho. Neste caso, solto por Lula para ajudar a pulverizar a disputa, em um momento em que quase tudo é incerto. E Marina Silva, da Rede? Sinto informar aos que sonham com a ex-ministra de Lula no Planalto que ela é outro coelho, só que manco. Está na memória do eleitorado perdido, mas não tem chances de seguir ao segundo turno, a não ser que estivéssemos escolhendo uma trinca para a rodada derradeira da disputa. Alguém lembrou de Henrique Meirelles, o postulante do mercado? Seu sonho já foi demarcado. Seja ou não lançado pelo MDB ao Planalto, não passará de candidato a vice de Alckmin. Alias, mesma pretensão secreta de Maia.

Ou seja, MDB, PSDB e DEM posam de independentes, para depois unirem forças contra o inimigo da hora. O curioso, como traço histórico, é que, criado em 1987 sob o nome de PFL, então composto por políticos da Frente Liberal do PDS, o DEM, que ganhou este nome em 2007, está na linhagem da velha Arena, partido implantado para dar apoio à ditadura militar. Aliado histórico do PSDB, não tem um candidato próprio ao Planalto desde as eleições de 1989, quando Aureliano Chaves concorreu pelo extinto PFL. O ex-PMDB tem a mesma história de carona, só que é mais facinho. Nunca venceu uma eleição para presidente em seus mais de 50 anos de história. Hoje no poder com Michel Temer, que, como se sabe, não foi eleito presidente – e nunca será -, o MDB, que foi PMDB por décadas e voltou ao nome do partido que nasceu no bipartidarismo, lançou seu último presidente em 1994, Orestes Quércia. Em 1989, tentou com Ulysses Guimarães, ícone maior do partido. Coadjuvante mais bem-sucedido da América Latina, o partido, ainda assim, teve três presidentes: Temer, José Sarney e Itamar Franco.

Com tanta convenção de fachada, a fake news do fim do dia foi a declaração do ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun, que afirmou ser “possível” que o Palácio do Planalto apoie a candidatura Rodrigo Maia. E ainda querem que acreditemos.


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