Sobre o DataFolha e espaços vazios

Em setembro de 2017, Lula marcava 18 % na pesquisa espontânea do Datafolha e Bolsonaro pontuava 9%. Hoje, enquanto o deputado marca 12%, o ex-presidente aparece com 10%. A queda de Lula na pesquisa espontânea, e também na estimulada, na qual já teve 37% e hoje pontua 30%, evidenciam que, na política, não há espaços vazios e, ao longo da campanha, a realidade inegável baterá às portas do PT: Lula está preso e, principalmente, inelegível, de acordo com os critérios da Lei Ficha Limpa. Os eleitores já estão percebendo que o voto em Lula é um desperdício. E buscando alternativas.

Um terço dos eleitores do petista querem que ele apoie Ciro Gomes, antecipando a tendência de migração do eleitorado. Se o PT, de fato, levar a candidatura até setembro, para depois registrar um poste desconhecido como Haddad, deverá ser tarde para esse nome obter os votos para passar ao segundo turno. O poder de transferência de votos de Lula é alto, com potencial de 47% (30% votariam com certeza e 17% poderiam votar), porém não é automático.

Precisamos voltar um pouco no tempo para relembrar a árdua tarefa que Lula teve, em 2010, para transferir votos à Dilma Rousseff. Na época, o ex-presidente gozava de popularidade muito maior que a atual, dispunha do poder da máquina federal e estava livre para andar com sua pupila a tiracolo, para baixo e para cima. Foram quase dois anos de propagandas, inaugurações, caminhadas e comícios.

Lula e eleitor do PT

O PT tem uma posição privilegiada para vencer, pela quinta vez, a eleição presidencial. Porém, precisa colocar o poste de Lula em campo logo. Lula não é um Rei Midas, que duas semanas antes da eleição desistirá, indicará seu substituto, tornando-o ouro puro com robustas intenções de voto. Se chegar até esse ponto, possivelmente, Lula não terá sequer intenções de votos suficientes para transferir ao seu ungido.

Até agora, a única coisa mais clara é a presença de Bolsonaro na etapa final da eleição. O deputado vem apresentando alta resiliência nas intenções voto, contando com uma militância orgânica e espontânea, que o defende diariamente nas redes sociais e promove recepções apoteóticas em aeroportos de todo o país. O desafio de Bolsonaro, para conseguir superar a barreira dos 20%, é parecido com o de Lula em 2002: suavizar o discurso, mas sem que isso faça perder sua base fiel de eleitores.

Com Temer batendo 82% de rejeição, a radioatividade sobre as candidaturas que gravitam em seu entorno é muito forte. O centro político é o espaço mais ocupado por nomes, mas menos ocupado com votos. Meirelles, Maia e até mesmo, Geraldo Alckmin, mostram-se inertes e não conseguem crescer de nenhuma maneira nas pesquisas. Possivelmente, alternativas voltarão à pauta após esta pesquisa, principalmente no PSDB. Com os resultados, ela se mostra uma missa de corpo presente de Alckmin, que se mostra cada dia mais inviável. Já outros partidos, como o PP e o DEM deverão retomar com intensidade as negociações para comporem a coligação de Ciro Gomes.

Após o choque de realidade que foi a greve dos caminhoneiros e a semana turbulenta, com grande oscilação do dólar e queda na BOVESPA, o mercado vai percebendo que o discurso anti-reformista é o que sairá vitorioso nas eleições. Resta definir qual dos potenciais candidatos teria mais condições de conduzir um estelionato eleitoral para impedir um novo mergulho do país na recessão.

*Victor Oliveira, mestrando em Instituições, Organizações e Trabalho (DEP-UFSCar). E-mail: ep.victor.oliveira@gmail.com

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